Mudança
Se isto não acontecer, clique aqui.
Voltei atrás quando disse aqui que a entrevista com a Fernanda Takai seria a última do ano. Encontrei um bom velhinho que me fez tomar esta decisão.
Entre uma criança e outra, Papai Noel me atendeu. Só esqueci de fazer o meu pedido.

Queria entrevistar uma banda de pop rock nacional ainda este ano. Pensando nos leitores achei que teria que ser uma banda de personalidade forte e ao mesmo tempo doce. E Pato Fu foi o primeiro nome que me ocorreu. Os contatos com a Fernanda Takai começaram antes da turnê que o Pato Fu fez pela Europa. A Fernanda não demorou em atender as minhas solicitações e prometeu uma entrevista para a volta. Pensei: “lá se foi a minha chance”. Mas dentre todas as qualidades que a moça tem podem acrescentar ai mais uma: ela tem palavra e cumpriu o que prometeu. E com muita, mas muita simpatia e atenção.
Fernanda Takai dispensa maiores apresentações e o Pato Fu mantém um site bastante atualizado, vale a visita.
Mesmo que você não seja fã da banda é impossível você ler a entrevista e não querer ouvir a música deles logo em seguida. Não tem o CD? Clica aqui e ouça As Brigas que Perdi.
Espero que gostem do resultado.
M. Pimenta - Vocês acabaram de fazer uma mini-turnê por Portugal e um show
F. Takai - Portugal abre bastante espaço pra produção cultural brasileira de modo geral. É comum ver anúncios de espetáculos de teatro, filmes, shows de artistas brasileiros... As músicas daqui tocam com freqüência em rádios de lá. O contrário não ocorre. É muito difícil você ouvir um artista português nas rádios do Brasil.
Temos tentado trocar figurinhas com bandas portuguesas para que exista mais divulgação aqui do que tem sido feito de novo por eles, especialmente no segmento pop rock.
Claro que ainda há mais facilidade de encaixe no mercado para aqueles que tem um som mais "Brasil-exportação", como em Londres or exemplo. O Pato Fu não tem isso porque nossas influências são diversas. Se não cantássemos em português, as pessoas não adivinhariam nossa origem pelo som. Demorou bastante tempo pra gente conseguir se apresentar ao vivo
nesses países, mas valeu a pena porque o show é nossa melhor moeda. Acho que vamos voltar!
M. Pimenta - A década de 80 foi rica para o rock brasileiro, coincidência ou não, as letras eram muito politizadas, algo raro hoje
F. Takai - Não acho que o rock dos anos 80 tenha sido mais politizado, nem que o jovem daquela época prestasse mais atenção no assunto que os de hoje. Havia mais variedade estética, mas até mesmo o discurso político dentro de uma letra pode ser simplesmente uma característica de um segmento e ficar banal. Há pessoas escrevendo com essa conotação também, mas parece que as categorias musicais são mais restritas quando se fala
Algumas vezes a gente pode chamar a atenção dos jovens e do público em geral para alguns assuntos importantes sem ter que levantar bandeira, ser panfletário.
Sim, acho que o jovem busca alguma forma de identificação com os artistas que admira, então tudo o que está em torno de nosso trabalho recebe um foco de atenção. Prefiro pensar nessa influência de forma mais subjetiva e não num "dedo na cara" ou "faça isso, faça aquilo".
M. Pimenta - De que forma a música pode contribuir na formação dos jovens?
F. Takai - Gostar de música é sempre algo muito bom na vida de qualquer pessoa. Essa capacidade abstrata embutida nela... algo inexplicável como a empatia por uma voz, um timbre, a vontade de se colocar um disco pra tocar, de querer aprender um instrumento, escrever uma poesia que pode vir a ser uma letra, nos torna humanos mais sensíveis. Além disso, a linguagem musical é mesmo universal. Ter algum domínio sobre ela como músico ou como ouvinte, já nos coloca em contato com outras culturas, outras linguagens. Ocupar o tempo dos jovens com música devia ser matéria obrigatória nas escolas. Seria também o embrião para uma formação profissional extra.
M. Pimenta - Vocês acabaram de fazer um show em Salvador, cidade de uma cultura riquíssima e com uma das maiores desigualdades sociais do Brasil. Como é lidar com um público com valores tão destoantes?
F. Takai - A gente encontra esse tipo de desigualdade Brasil afora. O evento que fizemos em Salvador é um bom exemplo de tentarmos equilibrar um pouco mais essa balança. Os ingressos tinham preços bem populares, o mais caro custava 10 reais e estimulava-se a doação de livros. Parece batido dizer que a gente precisa investir em educação, mas é esse mesmo o caso. Saber e querer ler mais é ser iluminado por idéias. É abrir pra mais gente a possibilidade de se viver melhor, de arranjar saídas, de fermentar a mente.
M. Pimenta - Há planos do Pato Fu no próximo ano para a Europa? E para a América Latina?
F. Takai - Gostaríamos de voltar à Europa no verão, quando a temporada de shows acontece com mais vigor. Há festivais interessantes em Portugal, França, Espanha, Inglaterra que talvez pudessem ser uma boa vitrine pro Pato Fu. A disputa é grande, mas estamos mandando material desde já.
Temos estreitado os laços com alguns artistas da latino-américa como os Aterciopelados (Colômbia) e Babasônicos (Argentina). Há outros artistas que admiramos como Café Tacuba e Julieta Venegas do México... acho que todos temos vontade de interagir mais. Vamos tentando pouco a pouco.
M. Pimenta - Gostaria que vocês comentassem a frase do "press release" de vocês: “O Pato Fu é uma banda da qual se espera tudo. Não qualquer coisa, mas tudo”.
F. Takai - Sempre dissemos que o Pato Fu tem álibi pra fazer música de todo o jeito desde que seja boa. Não colocamos fronteiras estéticas nas canções. Já ousamos gravar em espanhol, japonês, italiano, francês, inglês e nem falamos essas línguas todas tão bem... Também os assuntos de cada letra são bem diferentes. Podemos falar sobre licitação pública, amor de cachorro, perdas, ganhos, luz no fim do túnel, vingança tecnológica do Japão, inteligência artificial, saudade, sem deixar de ser sempre Pato Fu.
Márcio, obrigada pelo espaço e divulgação!